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Reactor 4

esquerda snowflake, lobo marxista easylado@sapo.pt

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O que andamos a comer?

11.10.10 | Cldsunshine

O Jornal de Noticias publica uma notícia muito interessante sobre o consumo de produtos fora do prazo. A temática da comida é algo que interfere em diversas dimensões como o ambiente, a sociedade, a economia, politica, etc. Vou tentar tocar em algumas destas dimensões.

Já foi provado que a fome não existe por escassez de alimentos, mas por incapacidade de os distribuir eficientemente. Amartya Sen (Nobel da economia em 1998) tem trabalho provado nessa área. Os ocidentais comem muito e produzem ainda mais do que conseguem comer e o resultado é toneladas de comida boa atirado às lixeiras todos os dias. Estima-se que no Brasil vão para o lixo todos os dias 39 000 toneladas de comida perfeitamente própria para consumo. Num exemplo a seguir, o governo brasileiro em cooperação com os privados está a investir em máquinas de desidratação de comida, para melhor aproveitar as sobras e evitar desperdícios.

Nos EU, ironicamente o país que mais desperdiça, surge um movimento que são os Freegans. Estes Freegans são pessoas que adoptam estratégias alternativas para viver, baseadas em uma participação limitada na economia, e consomem o mínimo possível de produtos. Nos EU os Freegans podem chegar a juntarem-se à noite e dirigirem-se aos contentores do lixo das grandes superfícies para procurarem comida. Não falamos de pobres que não têm o que comer, mas de pessoas com uma posição estável no mercado de trabalho que optam por consumir o menos possível e como tal aproveitam, não restos de comida, mas produtos bons que são deitados indiscriminadamente ao lixo pelas superfícies por serem considerados inaptos para venda. Nestes requisitos entram latas amassadas, mas dentro do prazo, frutas e legumes embalos que apesar de próprias para consumo estão fora do prazo e como tal não podem ser vendidas, pão e bolos que não foram vendidos e que não podem voltar para as montras no dia seguinte. Enfim uma panóplia de produtos óptimos para consumo que vão para o lixo. Pois, no artigo acima mencionado, cientistas portugueses alertam a distinção entre as definições de “consumir de preferência antes de” ou “consumir antes de”, pois há produtos que podem perfeitamente ser consumidos fora do prazo, pois este apenas aponta para uma data depois da qual o produtor não se responsabiliza pelo estado do produto, no entanto não só não quer dizer que este esteja adulterado como mesmo que o esteja, não esteja próprio para consumo. Isto é: depois de determinado prazo os produtos começam a perder qualidades, mas que mesmo assim podem ser consumidos. Esta atenção pode evitar vários quilos de comida deitada ao lixo.

A produção de comida em larga escala tem como já sabemos, enormes impactos no ambiente. Um dos maiores contribuidores para o lançamento de metano para a atmosfera, com severos impactos para o efeito de estufa, é a indústria pecuária. Em termos simples, o coco de vaca é terrível para o ambiente. Não é só a criação de vacas e porcos que contribui para o degradar do nosso ambiente, a agricultura intensiva e os seus pesticidas degradam os solos e os lençóis freáticos. A produção, em autênticas fábricas, de carne para consumo atropela vilmente os direitos dos animais. No entanto não podemos ignorar o que a produção em escala da economia fez por pela humanidade, permitindo que a mão-de-obra se libertasse da produção alimentícia de consumo próprio e fosse desviada para o desenvolvimento de outras áreas, como a medicina, engenharia, artes etc.

O problema reside no uso que fazemos da comida. O documentário Food inc, alerta-nos para o facto que todos não só comermos muitos como comermos mal. É ilustrativo a cena do esquilo e da tartaruga no filme Pular a cerca, em que o primeiro explica ao segunda como os seres humanos comem muito, depois necessitam de digestivos e depois ainda de fazer exercício para emagrecer e consequentemente poderem comer mais. Mas não é só a quantidade, é a qualidade que importa. Cada vez mais vemos nos supermercados produtos transformados que em nada são saudáveis. Consumimos estes produtos com a desculpa de que não temos tempo para cozinhar, e é verdade, mas subestimamos o poder de uma sopa ou de uma sande. Diz o autor do documentário “desconfiem de comida que não se estraga”. O mesmo diz que se comermos menos, podemos desviar os recursos para comidas mais saudáveis como as comidas biológicas. Claro que nem toda a gente tem recursos para serem desviados, mas fica o conselho para quem pode.

A agricultura biológica é uma óptima saída para quem não quer fazer parte de uma indústria poluente e que maltrata os animais. Aliás a opção cada vez maior por estes produtos é visível e pode ainda ajudar a desviar verbas que financiam grandes produções, para apoiar produtores biológicos.

O cuidado com a alimentação, no que toca à qualidade, é muito importante para nos sentirmos melhores connosco física e psicologicamente, mas no meu ponto de vista o cuidado com as quantidades têm maiores impactos, nomeadamente para a redução da produção de lixo (também um dos grandes males das sociedades modernas) e melhor distribuição dos recursos.

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